2 de agosto de 2015

VERDADES  E  MENTIRAS  DA  BOLSA

Nesta edição:

©Jayme Ghitnick
2001 a 2015

Volume 15  Edição  723

O  GRAU  DE  INVESTIMENTO

Há um declarado conflito de interesses no negócio das agências,  já que boa parte das receitas delas provêm justamente das empresas  analisadas,  como ocorre também com os auditores externos (menos badalados,  mas enquadrados no mesmo problema).   Há dúvidas quanto à isenção possível nos pareceres,  ainda mais quando são frequentes os escândalos como os da lista acima e similares...

Por outro lado, se é verdade que há Fundos de Investimentos que possuem regras estritas para suas aplicações, limites etc., inclusive a proibição de investir em ativos sem o grau de investimento,  a verdade é que se trata de uma minoria no mercado, ainda mais numa conjuntura como a atual de ampla liquidez e de juros baixos, onde a relação risco/retorno favorece a maioria das alternativas disponíveis.

Todos já perceberam que a mecânica das agências tende a seguir a tendência do mercado, praticamente homologando o que já foi decidido pelos investidores:  é a sua postura habitual.   O Brasil já se tornara o quinto maior destino mundial de investimentos externos quando recebeu o grau e ao longo do desastroso primeiro governo Dilma,  o fluxo se manteve nos máximos, apesar de reduções da nota, sendo ainda o sexto maior destino...

Assim sendo, sem discutir o mérito das advertências das agências e compreendendo o uso político que leva ao ruído feito pela mídia e pelos profissionais de mercado em torno do que ocorreu nesta semana,  acredito que há bastante exagero no susto que se procura dar na sociedade e no próprio governo.   Tendo essa noção bem clara, esperemos que de alguma maneira,  algum benefício seja produzido.

CUIDADO COM EXAGEROS


No gráfico acima, podemos ver que logo que o governo Lula se comprometeu a manter as finanças em ordem (na ordem aceita pelo mercado...), o fluxo de recursos estrangeiros, que andava mais fraco,  temeroso da maior parte do programa do PT,  retomou vigorosamente ao Brasil, ultrapassando as cifras anteriores,  um pouco também devido ao clima global de otimismo.

Tudo isso ocorreu sem que o Brasil já tivesse alcançado o grau de investimento das agências de classificação,  o que aconteceu no final de abril de 2008,  poucos dias antes do nosso topo na Bovespa e da eclosão da crise financeira, provocada por crimes abusivos de bancos e corretoras com os CDO (obrigações colateralizadas por débitos), títulos em geral classificados com esse mesmo grau de investimento por estas mesmas agências...

Aliás, tinham também grau de investimento a Enron (até dois meses antes de sua espetacular declaração de falência...) e o estelionatário Madoff,  além de tantos outros casos ruidosos, no passado recente.

Isso provocou apertos nas regulamentações das agências:  na Europa, desde 2009 e mais agora,  após o caso da Grécia,  que de certa forma entrou para a lista acima, e na Ásia, em Singapura e Hong Kong, enquanto que nos Estados Unidos,  as coisas também andam nesse sentido,  ainda que bem mais devagar, devido ao poderio das instituições do mercado.