31 de agosto de 2014

VERDADES  E  MENTIRAS  DA  BOLSA

Nesta edição:

©Jayme Ghitnick
2001 a 2014

Volume 14  Edição  687

O  SEGUNDO  TURNO  (II)

O mercado influi

Tempos atrás,  na França,  François Mitterrand assumiu o governo,  representando os socialistas,  depois de um longo período em que a esquerda esteve fora do poder.  Durante os primeiros tempos,  creio que quase dois anos,  tentou implantar na economia boa parte das propostas sempre defendidas na oposição pelo seu Partido e que constam do ideário da esquerda ocidental: aumento de restrições aos negócios,  impostos sobre fortunas e heranças, legislação trabalhista protecionista etc.

Em pouco tempo, iniciou-se uma enorme evasão de capitais, de empresas e mesmo de pessoas. Inicialmente,  houve ações policiais repressivas, celebridades foram detidas em aeroportos e fronteiras.  Isso durou pouco:  premido pelo caos produzido,  pela ameaça do desemprego e de perturbação até mesmo no abastecimento,  o governo acabou voltando atrás e terminando seu período com uma orientação bem mais moderada e pragmática...e em paz.

Recentemente, a história se repetiu: François Hollande chegou ao poder depois de novo longo hiato e, acreditando que a sociedade exigia mudanças em face da crise internacional,  tentou a mesma coisa que Mitterrand,  o programa da esquerda.   As mesmas coisas aconteceram,  de forma menos dramática,  ilustrada pela mesma corrida de fuga para o exterior e de problemas ainda maiores para a economia.   O famoso ator (e empresário de vinhos...) Gérard Depardieu chegou a renunciar à cidadania francesa (pela russa...) em protesto contra a nova política e foi um de muitos.

No fim de 2013,  premido pela péssima situação do país e por enorme queda de popularidade,  Hollande propôs um pacto ao país,  para implementar medidas de austeridade clássicas e outras reformas,  tentando compor uma união nacional.   Nesta semana,  foi obrigado a reformar o seu gabinete,  em choque com o seu próprio Partido Socialista,  muito dividido em torno da aplicação do Pacto.

Não estou entrando no mérito de todos esses eventos,  mas constatando sua ocorrência.   Fatos semelhantes aconteceram por aqui, na primeira eleição de Lula, em 2002,  quando a vitória apertada  foi conseguida com a famosa Carta aos Brasileiros, onde o PT comprometeu-se a não praticar sua cartilha de medidas,  que havia assustado boa parte da sociedade.  A promessa foi mais ou menos cumprida,  sob a orientação de Palocci em especial e isso foi premiado com uma maré especial da economia mundial muito proveitosa para o Brasil.

Aparentemente,  depois disso,  os governos se iludiram com o sucesso obtido e imaginaram o país livre das repercussões da crise financeira.
Quando a realidade mostrou que não era assim,  perderam o rumo e passaram a agir oportunísticamente,  interferindo na economia sem uma visão geral,  com esparadrapos oficiais aqui e ali.  Acabaram por arruinar a indústria e o crescimento em geral,  com aumento da inflação e perda geral da confiança da sociedade.

Agora,  sob a ameaça de um segundo turno mais difícil do que se imaginava e com a oposição integrada por uma ex correligionária,  teoricamente do Partido Socialista,  mas que espertamente já está assumindo compromissos  liberais (inclusive indicando futuros ministros de orientação centrista e se dispondo a formar equipe com membros do PSDB e do PT...), a nossa presidente parece compelida a se defender e provavelmente virá por ai com sua versão da Carta aos Brasileiros,  acenando com a mesma marcha a ré de seus  colegas franceses,  acima mencionados (há exemplos em outros países também...).

Como lembrei em artigo anterior (
Ed685),  essa é a verdadeira base do atual rally no mercado: o mercado acredita que,  pelo menos em promessas formais,  qualquer dos candidatos em disputa praticará uma política econômica e uma gestão fiscal mais de acordo com o seu (dele, mercado) pensamento...